sábado, 12 de setembro de 2015

O móvel

Tudo estava indo bem no dia, até eu achar que o arroz tava queimando, correr para socorrê-lo, chutar o móvel, arrebentar quatro dedos do pé direito, socorrer o arroz que passava bem (e está bom) e eu ficar assim, de pés pro ar.

(10 de setembro, 2015)

domingo, 11 de janeiro de 2015

A Galinha e o 118

No ônibus, ou no busão, tudo é mais apertado, mais quente, mais sujo e mais suado. Mais mais, enfim. Mas nunca é igual. Claro, todo ônibus tem lá suas semelhanças uns com os outros, afinal é preciso ter um padrão para não confundir o passageiro, não é mesmo?

Aqui em Jampa, por exemplo, de início estranhei pra caralho, pois a gente entrava pela parte traseira do ônibus. O contrário lá de Sampa. Pouco depois até achei bacana a idéia. Era massa poder cumprimentar o condutor e o cobrador. Parecia um momento feliz do dia. Às vezes, era preciso reclamar também. Tem uns motoristas que acham que estão levando batata inglesa (a batatinha) no lugar de gente.

Depois de uns anos mudaram. Colocaram a entrada pela dianteira, um espaço minúsculo entre o cobrador e motorista. A gente nem bem conseguia entrar direito na lata e já tinha de pagar. Da entrada a gente já era tratado como sardinha. Um aperto só.

E mais apertado ainda era o 118, aquele ônibus que vai pra o Valentina. Ali vai de tudo. Vai gente, vai bode, vai criança (que também é gente), vai saco e sacoleiro e vai galinha. 

E numa dessas apertadas idas, em que eu voltava pra casa, entrou uma senhorinha miúda. Sumida no meio de tanto cacareco, ela sozinha ocupava o espaço de três pessoas. Tanta sacola, tanta caixa e coisa, tanto empurra-empurra e me ajuda daqui e me ajuda de lá, segura isso, seu moço, passa esse outro por cima da roleta e aquele outro pela porta traseira. E...

O fundo de uma caixa se rasgou.

Um gemido de susto e um “cocó” seguido de um bater abafado de asas.

Foi aquela gritaria. Aquele alvoroço. Gente se abaixando. Outros se esticando. Pega a galinha, cadê minha galinha, ai meu deus uma galinha, essa porra de galinha gritava o motorista, o cobrador sem reação, as crianças assustadas chorando e outras rindo, uma senhora com a mão no peito ai ai ai passando mal e um mói de peninhas voando pra lá e pra cá.

A galinha pulava de uma cabeça para cabeça, cada uma mais alvoroçada que a outra e que empurrasse ou que se apertasse mais, fugindo ou tentando pegar a pobre da ave.

Até que num dos pulos da nossa cocó, alguém lhe deu uma bolsada e ela, sem o abafado bater das asas, coitada, caiu juntinho da catraca, aos pés da senhorinha sacoleira que aos desesperos, por ela, ali chorava. Foi-se embora a galinha do terreiro. 

E o busão, 118, apertado, sujo de pena e cheio de gente suada, aos trancos e barrancos continuou seu caminho para o Valentina. Esse amado fim de mundo em João Pessoa.





Dezembro de 2014

sábado, 13 de dezembro de 2014

No mar e na rocha

Sobre nada, insisto.
Entreguei-me às feras
Sem nem sentir
Covarde. Talvez.
Pouco importa
Se o tempo não volta,
Ficar dando voltas, pra quê?
Insisto.
Sobre nada
A ponto de pouco me restar.
Nem mesmo você.
Por que não adianta de vez
E deixa o tempo investir assim
No mar e na rocha?
Sobre nada.
[em mim]
Insisto.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Possibilidades

Delas, o que sei:
Possibilidades
ainda que findas,
E só.
Sozinhas, algumas
Em coletivo, vários
Desvarios prosaicos
Versos avessos e diversos
Um labirinto, talvez.
A estrela e (não) mais.
E só,
Possibilidades
ainda que outras.
De outras línguas a mais
Desiguais e sinônimas
Anacrônicas e atuais.
Mesmo que iguais,
Prosas românticas
Realidades e uns modernos
E só.
Possibilidades,
ainda que una
Do exato a deus
E do teu o que é meu.
Ainda que una,
E só.

(22/09/2014)

domingo, 3 de agosto de 2014

Aos fios de 28

(da internet)
Arranquei
       
           um

de meus poucos cabelos brancos.

Queria ver como ele era.
Vi.

E de mim fiquei em falta.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Até breve.

O céu só tem levado fera... 
Deixando a gente de besta pra trás.

Até breve, vô.
Até breve, Rubens.
Até breve. João.
Até breve, Ariano.

Que seus vôos sejam plenos e em muitos planos.

No Ar

Papear



Papo, há.

A-pal-par.




par
por



Ar.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Da família e do amor.

(Seu Chico, meu avô... há mais ou menos 10 anos)
A família a gente ama sem conhecer. Conheço pouco da minha. Conheço pouco dos meus avós... de suas histórias e aventuras. De como eles se conheceram e se tornaram os meus avós. 

Meu avô nos deixou dia dezessete deste mês... foi difícil, é difícil... mas a gente entende o ciclo de sua vida. Ele teve seus filhos, seus netos e bisnetos. Cuidou de três gerações suas. Aos meus olhos, olhos de neta, ele era um homem completo. Homem de trabalho, de família, de cultura e de fibra. Seu filho mais velho, tio Luiz, me contou algumas de suas histórias, de seus feitos... 

Meu avô queria a todos nós.

E em uma dessas histórias... o dono das terras que meu avô estava/morava/cultivava confiscou toda a colheita daquele período para que o gado pastasse. Meu avô perdeu tudo. Mas o irmão do ladrão, vendo a injustiça, repartiu pela metade a safra de sua terra para que meu avô não ficasse tão prejudicado.

Muitas vezes, meu avô ia trabalhar no roçado com fome para dar comida aos seus filhos - meus tios, tias e mãe.

Nunca foi homem de se meter nos estudos deles e delas. Nem nos nossos. Mas sempre que lhe pedíamos a benção, ele nos respondia: deus te dê juízo. E eu, em meus cinco anos de idade, ficava me perguntando se juízo era bom, se era de brincar ou de comer, se eu podia levar por aí...

Conosco, os netos, ele era um homem de poucas palavras, mas sempre muito curioso. Percebíamos isso pelo seu olhar atento naquilo que estávamos fazendo ou carregando em nossos braços.

De uns tempos pra cá, meu avô se tornou o nosso xodó. Eu chegava perto dele e lhe perguntava se ele queria carinho no cabelo. Ele me encarava e balançava um sim com a cabeça; às vezes, dizia: quero e fechava os olhos aguardando o cafuné. Seu cabelo era prateado e bem lisinho, mas bem lisinho mesmo. Cabelo de índio.


Pelas palavras do tio Luiz, pude entender que tudo o que meu avô fizera desde o dia em que casara com a minha avó, fizera por nossa família. Para que a gente tivesse juízo, tivesse fortuna e tivesse saúde, como ele sempre me dizia quando eu lhe pedia a benção.

Obrigada, vô.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Catavento

Para o meu avô.



(http://avomocinha.blogspot.com.br/2011/02/cata-vento.html)
            Dizem que a infância é doce. Que por isso deve ser protegida e preservada. Uma das lembranças doces que tenho da minha é de brincar de catavento. Na verdade, não foi bem o catavento que tornou doce parte da minha infância, mas quem o produzia.
            Entre os meus três a cinco anos o meu avô, homem de poucas palavras, nos falava tudo quando sentava no batente de casa. Eram seis netos sob seu teto. Era catavento até umas horas. O meu prazer era vê-lo montar o brinquedo... Pegar o graveto ou o palito. Cortar o papel. Juntar as pontinhas do papel no centro da flor e pregá-las com um alfinete no graveto ou no palito.
            Era muita paciência. Eram muitos netos. E, às vezes, eram muitas crianças da mesma rua. Era muito catavento.
            Nossos cataventos eram simples. Flores rasgadas dos cadernos velhos de minhas tias e de minha mãe.
            Enquanto elas junto de minha tia avó e minha avó ficavam sentadas nas cadeiras conversando e observando a movimentação. O seu Chico, meu avô, ficava ali no chão, com os netos e as outras crianças, cultivando doçura.


17/07/14