segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A música do violão

Para Vô, vó e Ria, por todas as manhãs, manhas e tardes.

            Na sala de casa éramos seis ou sete pequenos, meu tio, seu violão, a moça dos cabelos mais longos desse mundo e a música. Todos em roda. Os pequenos sentados de perninhas cruzadas, cuecas, calcinhas e fraldas.
Éramos pequenos e musicávamos. E a música vinha de todo lugar. Entrava pela porta da sala, costurava entre as janelas abertas. Arrastava-se pelos chinelos da minha avó que passava. Na tesoura que cortava a nuvem, com o Saci que queria comer um bolo sozinho, mas ele não podia. Não. Ele tinha de dividir a música e o bolo com a gente. Nós também queríamos.
O meu tio cantava baixinho e carinhava o violão. Nós repetíamos. Repetíamos como se tivéssemos apenas aquele ar. Numa desarmonia sem fim e de roda, a todos os tons de cuecas, calcinhas, fraldas e voz. Os cabelos mais longos do mundo dançavam de um lado a outro, pareciam um balé nas águas. A moça cantava.
A música vinha de todo lugar. Eu lembro. Lembro que vinha da panela na cozinha. De Ria aguando o terreiro. De uma das tias ou das mães ou todas arrumando as camas, dobrando os lençóis, dobrando o sol ao som da nossa univoz.
Éramos pequenos. Sentados no chão. Perninhas cruzadas. Meu tio cantava baixinho. Estava sem a letra da música, dizia. Mas a música vinha de todo lugar, não era? E ali, dento do violão, não tem um monte de letrinhas? Acho que era dali que a música vinha. De todo lugar.
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