quarta-feira, 29 de abril de 2009

Sussurros de Chuveiro

Sabe quando você quer escrever e você não tem nenhum lápis ao alcance das mãos? Ou que seu computador está mais longe do que você poderia imaginar? Já te deu vontade escrever embaixo do chuveiro?

Comigo só acontece assim. Quando eu não tenho como escrever, quando eu não posso escrever, aí as idéias surgem do meio do nada. Fico imaginando que se a gente pudesse escrever com água seria tão legal, porque assim, dessa forma eu não teria perdido tanta coisa. É que eu não sou muito boa de memória. Não consigo gravar muitos dos poemas que escrevi. Sempre digo pra mim: esse eu vou lembrar. Mas que nada. Saio do banho pensando na roupa que vou vestir e pronto... o poema foi pelo ralo, literalmente.

Às vezes fico pensando que nem vale a pena ter tantas idéias. Vê-las escorrer ralo abaixo é tão difícil e desesperante. Parece até que aquilo que você pensou era descartável. Que não serviria de nada nem pra ninguém. E talvez nem servisse, mas mesmo assim, não deixaria de ser meu, parte de mim, parte de você ou de mim que estaria num papel e não diluído em água suja do esgoto.

Eu deveria ser como a maioria das pessoas: sentar num lugar, com um lápis na mão e começar a escrever qualquer coisa e esse qualquer coisa já sai genial. Mas eu nunca fui assim. Sempre fui do tipo que o travesseiro sussurrava segredos altas horas da madrugada. Lembro de morar com a minha mãe, ter um quarto só pra mim. E que normalmente eu já ia dormir tarde, assistindo filmes, lendo livros e/ou desenhando. Mas para ajudar nas minhas atividades noturnas, quando eu ia dormir, que deitava a cabeça no travesseiro, vinham até mim rajadas de idéias de textos, crônicas, poemas ou desenhos... O que eu fazia, puxava a prancheta com o lápis e o papel e começava a escrever ou a desenhar o que o travesseiro tinha dito pra eu fazer (lá se ia mais uma hora acordada). E daí quando eu achava que eu estava livre daquilo tudo que me deitava novamente, a situação acima mencionada se repetia umas duas ou três vezes, até eu dizer: não ao travesseiro e fechar os olhos ao que ele dizia. “Travesseiro linguarudo”, eu pensava.

E hoje é o chuveiro! Por que essas coisas fazem isso comigo? Por que eu não posso tomar banho como uma pessoa normal, apenas cantando qualquer rit que esteja na cabeça?! E o pior do chuveiro é que ele não deixa eu escrever ou desenhar aquilo que ele sugeriu aos meus poros. Eu disse anteriormente que as idéias eram minhas, mas agora no final desse texto eu percebo que as idéias são do chuveiro. E que é por isso que ele faz o que quer comigo, faz eu pensar ou sentir que aquilo que ele me sussurra aos poros são criações minhas...

O chuveiro deve pensar “Você pode ter assumido as autorias das obras do travesseiro, mas as minhas você jamais as terá em suas mãos” e rir de mim enquanto suas gotinhas de água tocam o chão.
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